Os cansados

Recebi, hoje, um SMS com a notícia de que Portugal “continua a vermelho no mapa europeu de infeções de covid-19”. Na verdade, quase toda a Europa está, como Portugal, a registar um índice de mais de 300 infeções para cada 100 mil habitantes.

Eu também estou a vermelho.
Pode ter sido por uma crise alérgica, mas a verdade é que, nos últimos dias, senti dores na cabeça e na coluna, espirrei um pouco mais e a coriza aumentou. Será a Covid? Olha, meu caro e minha cara, a princípio eu já não me importo. Também vou sem máscara pelas ruas abarrotadas de turistas.

Eu e a Europa, vacinados e cansados, estamos loucos pelo retorno á normalidade de outrora. 

Queríamos andar pelas ruas, espremidos por consumidores preguiçosos pelas calçadas, com sacos de roupas ou de cosméticos trombando com as nossas pernas. Consumidores estes, letárgicos, apreciando as fachadas das lojas de marcas transacionais, que continuam a contar com mão de obra escrava não vacinada de Bangladesh.

Não víamos a hora de ouvir os gritos de religiosos fundamentalistas, a nos tentar convencer de que o Deus é um juiz intransigente, preocupado com a nossa vida sexual há tanto tempo contida. 

Depois de dois anos em que gente solteira, como eu, penava pela falta de contato com alguém atraente, nas noites mornas de maio, ou mesmo nas madrugadas ferventes de agosto, a simples visão dum rosto sem máscara traz uma brisa de esperança em dias mais fogosos.

Sejamos francos, querido amigo e amiga, quem se importa com o fato de que parte do mapa mundi está a preto, pela falta de vacinas, ou vermelho-sangue, pela incrudescência de guerras sem razão?

Convenhamos: quem se lembra das bombas inclementes sobre Sabat, quando a vida floresce à vontade, na Baixa lisboeta, entre uma loja de sapatos e uma cafeteria abarrotada de espanhóis e de franceses, preocupadíssimos com as querelas entre russos e ucranianos, as quais, sob a regência da imperiosa vontade norte-americana, deixa mais caro o preço do gás, o que pode, daqui a nada, tornar este passeio idílico pela cidade velha numa aventura perigosa, dado o aumento da miséria entre os pobres portugueses, sob influência da tomada de Kiev?

Estamos cansados e nada mais importa. Sigamos, vorazes, a usufruir do ambiente ameno e primaveril de Lisboa avermelhada pelo vírus, que já não nos mata. E que o Deus daquele crente medroso vá nos livrando duma outra mazela, ante a permanência de conflitos que nos engolfam e hipnotizam pela tv, gerando em nós ares de zumbis trôpegos de The Walking Dead, cambaleando nas ruas onde antes do apocalipse sobressaiam chamativos letreiros, a anunciarem a vida normal, a qual eu e a Europa já não aguentávamos mais esperar que voltasse.

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