Refugiado

Lisboa, Rua Augusta, 2014. Um homem com um turbante vermelho, cinco cães, uma bicicleta e um megafone improvisado, olha diretamente para mim.

Não me lembro do som que saia da sua boca. Não sei se era um canto ou alguma fala em língua arábica, pela qual ele me exigia uma moeda em troca da foto. Terei eu dado-lhe uma moeda, em retribuição?

Lembro-me bem, no entanto, de que, anos antes, eu havia mergulhado no universo das famílias de artistas mambembes, que trabalhavam pelas ruas de Lisboa. Descobri que eram sempre formadas por grupos numerosos de homens, mulheres e crianças.

Estas pessoas, via de regra, descendiam de gente obrigada a circular pela Europa. Ou eram, elas mesmas, nascidas em países ao sul do Mediterrâneo. Miseravelmente instaladas em Portugal, continuavam a migrar em busca de sustento, visto não terem lugar reservado no espaço económico, o qual os dominava enquanto os discriminava e expelia. Espaço este, aliás, profundamente exíguo, dados os efeitos da política neoliberal em vigor na altura.

A mendigarem pelas ruas, traziam no olhar e na pele as marcas da exclusão. Localizados dentro duma fronteira étnica que justificava estarem excluídos, dificilmente seriam entendidos como o que realmente eram – e ainda são: refugiados.

Obrigados a deixarem a terra de origem em função da guerra ou da fome, continuavam a fugir, desta vez dos olhares que os segregavam à condição indesejada de hereges terroristas, ou de intrusos.

Para atenuarem o terrível estigma, espremiam-se nas bordas do sistema. Retiravam dele o que conseguiam a partir do uso extremamente precário das ferramentas que tinham disponíveis. Neste caso, uma bicicleta, cinco cães, um turbante vermelho e um megafone improvisado. Dispositivos com os quais o homem da foto parece exigir de mim alguma contrapartida.

O ódio aplacado pelo dever de caridade ou pela culpa. Já não sei se me aproximei dele, ou se, indiferente ao seu clamor, suguei alguma informação útil ao meu projeto literário e fui passear na ribeira do Tejo.

Já não me lembro também se ele falava ou cantava, em frente a uma loja falida, à direita de quem descia até o rio, na Rua Augusta de oito anos atrás.

3 comentários sobre “Refugiado

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