O Sol nas Entrelinhas – com André Felipe

Escrevi um poema, após ler a notícia do assassinato de Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, de 19 anos, pelo segurança de um supermercado, no Rio de Janeiro, no início de 2019. Resolvi fazer dele um poema dançante, na esperança de contribuir com a luta antirracista. Aqui vai ele:

A cena fez-me questionar qual o lugar de um homem branco, diante do extermínio de jovens homens pretos, no Brasil e não só. Este lugar, inicialmente, é o de um espectador, o qual, depois, poderá tornar-se num ativista solidário.

O lugar de testemunha ocular é valioso, afinal, os repórteres que me contaram a triste história, servem aos mesmos interesses que sufocaram o jovem Pedro. O que mais pode ter ocorrido na cena, que não apareceu nos textos enviesados das reportagens?

Um poeta médium veria o que eu vi: um espírito ancestral, oriundo de onde hoje está Angola, a “acolher o menino” sufocado. Todos os desdobramentos possíveis deste encontro místico levam à tomada de poder pela sublevação expontânea de mulheres e de outros jovens, num frenesi de fúria glorioso.

A revolução será mediúnica. Não sem, antes e depois, ser irremediavelmente vivida por quem deu a vida dos avós, dos tios e dos pais. Os “primos e primas” do poema são também filhos e netos. Sem saber o que sofreram e sofrem, compadeço-me, humilde e solidariamente.

Para acompanhar os versos, compus uma marcha ruidosa que, de súbito, torna-se carnavalesca. Nela, tudo estoura, tudo grita, tudo rói. Vozes doídas ou furiosas suplantam a ousadia das sirenes. A revolução será, também, carnavalizada, com o êxtase advindo da ruína final de um castelo de cartas marcadas, onde as peles escuras são mortas enquanto gente como eu, tranquilamente, adquire pão, sabonete e revistas pornográficas.

No vídeo, o corpo elegante e altivo de Jackson Lorran representa os componentes vivos e mortos da “marcha dos mártires esquecidos”.

Pela voz de André Felipe, o que seria um sussurro se torna num discurso proferido com um megafone, durante os eventos que antecederem o fim deste mundo em que meninos são mortos, publicamente, sem qualquer razão para isto.

“O Sol nas Entrelinhas” é o segundo lançamento do meu projeto autoral, RG:Murilo.

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